Edificação de três andares desabou por acúmulo de objetos e vícios de construção; ninguém ficou ferido
“Não sei o que vou fazer, ainda mais com uma criança”, diz a dona de casa Valdelícia Evangelista, 24, grávida de cinco meses, que morava com o namorado no terceiro andar do imóvel que caiu no Uruguai na noite desta segunda-feira (16). Além de geladeira, fogão, TV, máquina de lavar e até roupas, ela perdeu parte do enxoval que preparava para o bebê que está a caminho. Valdelícia morava na casa há cerca de dois anos.
Pai da jovem, o catador de materiais recicláveis e trabalhador informal Sizinho dos Santos, 55, que também vivia na edificação, disse que comprou o imóvel há cerca de quatro anos e conta que também perdeu praticamente tudo que tinha em casa. “Foi geladeira, fogão. Só não perdi a televisão, porque saí com ela debaixo do braço. Para salvar ela eu não salvei nenhuma peça de roupa para vestir. Eu estou com a de ontem”
Sizinho diz que ouviu estalos no prédio há alguns dias. “Há três dias atrás a gente saiu de dentro do prédio e ficou embaixo para ver o que estava acontecendo. De ontem para hoje, o prédio estalou forte e desceu todo”, relembra. Segundo Valdelícia, a família não tem onde ficar depois do desabamento. Vizinhos relataram que Sizinho é um acumulador e tem o costume de deixar muitos materiais em sacos plásticos no imóvel. “A gente não pode falar as coisas, porque ele [Sizinho] não gosta, mas é muita coisa ali em cima, muito peso”, disse um homem que não quis se identificar.
Quando deu seis horas, ouvi aquele estalo bem alto, parecendo que era bomba”, diz a vendedora Carla Piedade, 49. A mulher é dona da lanchonete que ficava no térreo do imóvel. Depois de ouvir o som de partes do prédio caírem na marcenaria ao lado, ela alertou Sizinho de que o prédio poderia desabar. “Ele ficou nervoso e começou a andar de lá pra cá dizendo que precisava subir pra pegar algumas coisas. Eu falei ‘desça daí que eu estou ouvindo estalar’ e desceu”, relembra Carla.
Mesmo em alerta com a chance de desmoronamento do imóvel, Carla decidiu ir à igreja. Quando estava prestes a voltar para casa, que fica na mesma rua, recebeu a ligação da filha, grávida de 9 meses, que falava com a voz trêmula. De início, Carla pensou que a filha estaria entrando em trabalho de parto, mas logo soube que seu único sustento havia sido destruído.
“Tudo depende de mim, é dessa mão aqui”, conta, apontando para a própria palma. Mãe de sete filhos e responsável por sustentar a família sozinha, Carla perdeu geladeira, fogão e vitrines que havia comprado para vender bolos durante os festejos de São João. “Pelo menos Deus botou a mão e não foi ninguém, só tenho a agradecer”, diz.
Além da comerciante, o marceneiro José Jorge Almeida, 60, também sofreu prejuízos com o desabamento do imóvel de três andares. Ele estava instalando portas na casa de um cliente quando recebeu a notícia de que os escombros atingiram a área onde costumava descansar. Duas de suas máquinas de grande porte usadas para cortar madeira foram soterradas pelos escombros.
José herdou a marcenaria de seu pai há mais de 30 anos e apesar dos estragos causados pelo incidente, está esperançoso de que vai reconquistar os materiais para reerguer a oficina. “A gente se sente desamparado. Porque você tem uma coisa, há um bocado de tempo e vê se destruir assim de uma hora para outra. Ninguém se sente bem. Mas graças a Deus, ninguém se machucou e vamos botar a força para frente”, diz.
Uma vistoria da Defesa Civil de Salvador (Codesal) apontou que o imóvel desabou por vícios construtivos e excesso de carga por conta do acúmulo de objetos no andar superior. A demolição das partes comprometidas e que oferecem riscos às casas vizinhas foram solicitadas à Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano (Sedur). A autarquia ainda vai programar a demolição. Os ocupantes do imóvel farão cadastro na Codesal para serem realocados e receberem auxílios após análise. Ninguém ficou ferido.
créditos: correio24horas


