Episódio com o “Rei” levanta o debate sobre perda cognitiva, desconexão social e por que o País ainda falha no acolhimento de uma população que não para de crescer. O poeta Arnaldo Antunes cravou que “a coisa mais moderna que existe nessa vida é envelhecer”. O jornalista, escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues, ao ser questionado sobre qual conselho daria para os jovens, foi enfático: “Envelheçam!”. Na literatura clássica, o velho é sinônimo de sábio, figura respeitada e determinante para o crescimento do herói. Envelhecer é acumular experiência. É entender a vida sem o imediatismo da juventude e sabendo que tudo tem o seu tempo. Mas, e quando essa bagagem histórica se transforma em uma carga difícil de carregar? Para além da vivência, o tempo atroz traz consigo o cansaço. Inevitavelmente, o corpo sente o peso do passar dos anos e, nesse processo, pernas, braços e cérebro por vezes padecem diante dos incontestáveis efeitos da idade. Em apresentação aberta ao público na cidade de Salvador, no final do ano passado, o Rei Roberto Carlos, majestade da Jovem Guarda, foi assunto não apenas pelos clássicos entoados em coro na Arena O Canto da Cidade, mas também por um desentendimento com fotógrafos que cobriam o evento. Cenas do artista fazendo a tradicional entrega das rosas sem a simpatia que marca sua trajetória de mais de 60 anos de carreira também viralizaram nas redes e, rapidamente, o tribunal da internet o condenou à aposentadoria pelo crime de déficit de cognição social. Como costumam ser esses julgamentos, não houve apresentação de provas ou direito à defesa. Bastou o etarismo. A atriz e ex-esposa do cantor, Myrian Rios, fez um desabafo nas redes sociais que foi também um grito de alerta contra o preconceito de idade e um clamor pela valorização dos artistas que ajudam de fato a edificar a cultura brasileira. “Roberto contribui para o Brasil há mais de sessenta anos com músicas belíssimas, carisma, com amor, com charme. Hoje, aos oitenta e quatro [anos], cansado, a gente não sabe o que ele está vivendo, ele pode também ter um tempo ruim”, desabafou. Psicóloga especialista em gerontologia e membro da Comissão de Formação Gerontológica da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), Valmari Cristina Aranha Toscano ressalta a necessidade da empatia e busca por informação para se evitar posturas preconceituosas. “É necessário desmistificar algumas questões, principalmente sobre o que é da personalidade e do ego, e o que é de um quadro cognitivo que pode se alterar com o processo de envelhecimento”, disse. Valmari explica que senilidade é o envelhecimento patológico acompanhado de declínio cognitivo e funcional. Ela destaca que nem todas as mudanças que acontecem com os anos são fruto desse processo. Com o tempo, diz a psicóloga, as pessoas mudam algumas características da personalidade e podem ficar mais exigentes, mas isso não significa um quadro senil. A patologia é identificada na Classificação Internacional de Doenças (CID-10) com o código R54. “Quando se fala da senilidade, falamos de algo que interfere na estrutura neurológica. Se há demência, depressão grave, bipolaridade, ou alguma questão psicopatológica que altera a percepção da realidade, as ações e comportamentos são proporcionais ao que a pessoa pode perceber”. De acordo com o psiquiatra Alex Goes Teles, coordenador do pronto atendimento e do serviço de Psicogeriatria da Clínica Holiste Psiquiatria, é importante destacar que cognição é um termo amplo, que se refere a um conjunto de funções mentais, como atenção, memória, linguagem e capacidades de execução. Ele diz ainda que a cognição plena permite ao indivíduo manter atividades funcionais, como estudar, trabalhar, estabelecer relações interpessoais e resolver problemas. “Sabe-se que a prevalência dos casos de demência aumenta com o envelhecimento, mas não é correto afirmar que a perda de cognição ou a demência é uma condição inerente ao envelhecimento”, afirmou. Essa perda cognitiva é o que explica o fato de determinadas atitudes serem encaradas com mais ou menos reatividade. Uma vez que, quando há um problema instalado, a capacidade de compreender as situações de vida termina sendo afetada e a pessoa perde a crítica e trata aquilo de forma desproporcional. Daí a importância de entender o que está acontecendo, se trata-se de um quadro depressivo, demência, questão psiquiátrica como esquizofrenia, ou psicótico, onde a pessoa distorce a realidade e passa a se incomodar com coisas de pouca importância. Alex Teles destaca que é preciso falar a respeito do processo de desconexão social, que se dá a partir do momento em que o indivíduo começa a perder os papéis que construiu ao longo do tempo e com os quais se identifica, como pai, mãe, filho e profissional. Ele explica que a dinâmica social valoriza o sujeito a partir da função que ele exerce nesse contexto. Com o passar dos anos, os filhos constituem seus próprios núcleos familiares, o mercado de trabalho se torna progressivamente menos acessível à população idosa e o acesso a determinados espaços é limitado. “Nesse contexto, ocorre uma redução significativa da participação social, acompanhada pela perda de papéis antes centrais. O indivíduo passa a viver uma desconexão social, no sentido de que se mantém vivendo em uma sociedade, porém com a sensação de pouco pertencimento”, detalhou. Por isso também é muito importante ter atenção à saúde mental dos idosos, uma vez que essa parcela da população não raramente é invisibilizada quando o assunto é o que acontece na psiquê. Para se ter uma ideia, apesar de associada aos jovens, são as pessoas idosas que lideram o ranking dos mais afetados pela depressão. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a doença atinge cerca de 13% da população entre 60 e 64 anos. Atenção aos sinais O envelhecimento é marcado pela heterogeneidade. Ou seja, cada pessoa envelhece de um jeito e, quando se fala em perda cognitiva ou quadros emocionais, não é diferente. Nesses casos, dificilmente não haverá indícios de que um problema está se instalando, porém, nem sempre esses sintomas são levados a sério. “Muitas vezes, a gente fala que ‘é da idade, é normal, é
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